"Porque os enredos, mesmo os mais mesquinhos, são rituais de fuga ao tédio. Embirrava contigo para te ver espernear. Até que deixei de ter paciência para te ouvir. Irritavas-me a despropósito e eu já não conseguia controlar o enredo da minha embirração contigo. Minha culpa, minha máxima culpa, já não conseguia ouvir-te as lamúrias. Nunca usaras a hipocondria existencial como técnica de sedução - de resto abominavas esse género de aproximação, tornavas-te quase agressiva quando alguém tentava comover-te com queixas ou doenças imaginárias. Só no Woody Allen suporto isto. Porque ele usa a hipocondria como mera música de fundo, quase como quem pede desculpa de ser tão perfeitamente inteligente. E a maioria das pessoas usa-a em vez da inteligência. Sobretudo as mulheres, por muito que me custe admiti-lo. E rias. A falta que me faz esse teu riso. Quase obsceno. Apagava a luz do dia, o ruído do tédio, a gritaria das crianças do andar de baixo. Depois educaste-o politicamente - há quantos anos o teu sorriso morrera, quando tu morreste. Ris-te agora, imponente, nos meus sonhos. Havia algo de trágico nesse teu riso, um desgosto de que o mundo fosse tão diferente dele. Uma dança de rajada sobre a pompa e a miséria. Um amor bolorento em que se mergulhava como num mar de nuvens quentes. Havia o rosto eterno da vida, nesse teu riso que morreu."
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