25.10.08

Inês Pedrosa

"Porque os enredos, mesmo os mais mesquinhos, são rituais de fuga ao tédio. Embirrava contigo para te ver espernear. Até que deixei de ter paciência para te ouvir. Irritavas-me a despropósito e eu já não conseguia controlar o enredo da minha embirração contigo. Minha culpa, minha máxima culpa, já não conseguia ouvir-te as lamúrias. Nunca usaras a hipocondria existencial como técnica de sedução - de resto abominavas esse género de aproximação, tornavas-te quase agressiva quando alguém tentava comover-te com queixas ou doenças imaginárias. Só no Woody Allen suporto isto. Porque ele usa a hipocondria como mera música de fundo, quase como quem pede desculpa de ser tão perfeitamente inteligente. E a maioria das pessoas usa-a em vez da inteligência. Sobretudo as mulheres, por muito que me custe admiti-lo. E rias. A falta que me faz esse teu riso. Quase obsceno. Apagava a luz do dia, o ruído do tédio, a gritaria das crianças do andar de baixo. Depois educaste-o politicamente - há quantos anos o teu sorriso morrera, quando tu morreste. Ris-te agora, imponente, nos meus sonhos. Havia algo de trágico nesse teu riso, um desgosto de que o mundo fosse tão diferente dele. Uma dança de rajada sobre a pompa e a miséria. Um amor bolorento em que se mergulhava como num mar de nuvens quentes. Havia o rosto eterno da vida, nesse teu riso que morreu."



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