28.10.09

Tati B

"Justo eu, que sou feliz basicamente por me resguardar do absurdo que é viver nesse mundo. E eu não era isso que costumo dizer “eu sou”, com tantas vontades e limites. Eu podia aguentar, pagar, cuidar, guiar. E porque eu estava já muito cansada, considerando que tenho hora até pro segundo número dois do dia e pro chá verde e até pra hora de parar e recapitular as horas todas milimetricamente sentidas, eu acabei emendando também o bar sujo que emendou numa festa pior ainda. E emendei a dança, o grito. E emendei os sapatos embaixo da mesa. E emendei uma taça de vinho e outra, que me fizeram emendar, já que eu estava tão cansada, uma blusa de lã perdida, já que estava tão quente. E emendei deixar, já que eu estava tão cansada, que as pessoas pegassem no meu braço, na minha nuca, no meu joelho. E depois, quando não encontrei meu carro, não sofri, eu não era mais nesse dia. Não cabia sofrimento em mim pois sofrer é antigo, é de antes. E eu não era nada. O segundo e o daqui pra frente, querendo ver as coisas mesmo com os olhos já pedindo o fim de ver tantas coisas."

30.9.09

deixa pra lá, eu vou, adeus

esse aperto talvez seja apenas a percepção de que tudo se repete. todos os dias. o tempo todo

eduardo b

16.2.09

Rita Apoena

"Procuro uma câmera
que fotografe o iminente,
e a memória revele as imagens,
pendurando-as na linha do tempo,
para secar."


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"[...] Será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente? Será que é assim que tudo acaba? Ou nem mesmo começa? Acordei com uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra das folhas em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz pintando os móveis de colorido que entendi o fim de um casamento: nenhum amor floresce preso numa casa, sem contemplar, por instantes, a luz de uma tarde... Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu olhar você. E você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, me estender sorrindo o seu cachecol xadrez."

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"Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça."

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"Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas."

13.2.09

My blueberry nights (filme)


- So what's wrong with the Blueberry Pie?
- There's nothing wrong with the Blueberry Pie, just people make other choices. You can't blame the Blueberry Pie, it's just... no one wants it.

Tori Amos

he said: "you're really an ugly girl, but i like the way you play."
and i died, but i thanked him
can you believe that?
sick, sick
holding on to his picture
dressing up every day

Caio F

-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando Kiss Kiss Kiss. Por que você não me convida para dormirmos juntos?
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Por que não é preciso?
-Porque não é preciso.

12.1.09

Tati Bernardi ²

"Ser normal é isso. Madura. Mulher. É combinar com o marceneiro a largura da prateleira querendo morrer. É dar seta e virar a direita querendo morrer. É levar a nota fiscal querendo morrer. É passar as notícias do jornal fazendo xixi e querendo morrer. E não morrer. É sentir a maior loucura do mundo dentro de si, a maior dor do mundo dentro de si, a maior preguiça do universo dentro de si, e simplesmente apertar o andar do apartamento no elevador marcando dez da noite, comer um quiche, combinar o ano novo, deixar uma frestinha aberta, trocar a sandália, alinhar os livros.
Odeio o mundo estragado em que vivo. A yoga não me dá nenhuma paz, os amigos não tiram essa bola de pêlo cortante da minha goela, reuniões de trabalho ou de comemorações são sempre intermináveis e com pessoas que parecem mais vivas e felizes do que eu, ou exatamente o contrário, dormir é acordar de meia em meia hora e repensar de novo e de novo e de novo. Odeio morar dentro de mim, esse ser que sou eu e que não me faz feliz e nem me deixa dormir. Esse ser que está sempre em outro lugar, no lugar de sentir todas essas coisas. No único lugar de sempre, esperando, esperando, doendo, doendo, cheio de si nos dois sentidos. Mas é a arrogância de novo. Querendo odiar. Querendo entender. Querendo doer mais que todo mundo, querendo não ser. Mas não é ódio e nem nada. É tristeza. Muita. E uma vontade enorme de sair daqui. Uma vontade minúscula perto do tamanho da minha tristeza. Eu que sempre vou embora de todos os lugares, acabo sempre chegando a conclusão que a tristeza é o único lugar do qual jamais se vai embora."