28.10.09
Tati B
"Justo eu, que sou feliz basicamente por me resguardar do absurdo que é viver nesse mundo. E eu não era isso que costumo dizer “eu sou”, com tantas vontades e limites. Eu podia aguentar, pagar, cuidar, guiar. E porque eu estava já muito cansada, considerando que tenho hora até pro segundo número dois do dia e pro chá verde e até pra hora de parar e recapitular as horas todas milimetricamente sentidas, eu acabei emendando também o bar sujo que emendou numa festa pior ainda. E emendei a dança, o grito. E emendei os sapatos embaixo da mesa. E emendei uma taça de vinho e outra, que me fizeram emendar, já que eu estava tão cansada, uma blusa de lã perdida, já que estava tão quente. E emendei deixar, já que eu estava tão cansada, que as pessoas pegassem no meu braço, na minha nuca, no meu joelho. E depois, quando não encontrei meu carro, não sofri, eu não era mais nesse dia. Não cabia sofrimento em mim pois sofrer é antigo, é de antes. E eu não era nada. O segundo e o daqui pra frente, querendo ver as coisas mesmo com os olhos já pedindo o fim de ver tantas coisas."
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